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Ômega 3 e resposta inflamatória

omega3Os ácidos graxos são necessários à síntese de lipídeos e podem ser classificados em saturados, monoinsaturados ou polinsaturados (AGPI). Entre os polinsaturados, duas famílias ocorrem na natureza: a ômega 6 e a ômega 3, sendo a primeira derivada do ácido Linoleico (LA) e a última derivada do ácido α-Linolênico (ALA). Tais ácidos graxos podem ser sintetizados em plantas, mas não por células de mamíferos devido à ausência da enzima Δ12 dessaturase. Desse modo, são considerados ácidos graxos essenciais a seres humanos devendo ser providos a partir da dieta e/ou suplementação.

Nas plantas, os AGPI derivam de ácidos graxos saturados, os quais são

progressivamente dessaturados para formar o ácido graxo monoinsaturado oleico e os polinsaturados LA e ALA. O LA é um importante componente dos óleos derivados de sementes, como os óleos de milho, soja e girassol, os quais

podem conter 50% ou mais de LA. O ALA constitui os lipídeos presentes em folhas e que fazem parte do aparato fotossintético de plantas, entre elas as algas. Encontra-se presente também na semente de linhaça, podendo constituir 75% dos ácidos graxos presentes no óleo derivado desta semente. Ao serem ingeridos, sofrem ação de alongases e dessaturases (enzimas) e originam seus principais derivados: o ácido araquidônico (ARA) e os ácidos eicosapentaenoico (EPA) e docosahexaenoico (DHA) respectivamente, os quais não são interconversíveis e competem pela mesma enzima, Δ6 dessaturase. Tanto EPA como DHA podem ser encontrados em peixes marinhos, como sardinha, atum e linguado e em cápsulas de óleo de peixe disponíveis comercialmente.

Os AGPI ω3 são importantes para a atenuação da resposta inflamatória.

Mudanças ocorridas na dieta ocidental, que incluem o menor consumo de AGPI ω3, associam-se à maior prevalência de doenças crônicas caracterizadas por inflamação, como aterosclerose, hipertensão arterial, diabetes, obesidade e neoplasias.

Os principais fatores envolvidos aos problemas mencionados acima, bem como os que caracterizam a população ocidental são os seguintes: 1) aumento do consumo calórico e decréscimo no gasto de energia (a exemplo do sedentarismo); 2) aumento do consumo de gordura saturada, AGPI ω6 e ácidos graxos trans associado à diminuição de AGPI ω3; 3) diminuição do consumo de carboidratos complexos e fibras; 4) aumento do aporte de cereais e decréscimo da ingestão de frutas e vegetais; 5) diminuição do consumo de proteínas, antioxidantes e da ingestão de cálcio.

Atualmente a dieta ocidental é deficiente em AGPI ω3 e a relação AGPIω6/AGPIω3 encontra-se em torno de 15-25:1 enquanto na era Paleolítica se aproximava de 2-1:1. GALLI e CALDER (2009) relatam que mais importante que a razão entre os AGPI é a concentração absoluta de AGPI ω3 especialmente em células e tecidos, alertando para a necessidade de concentração mínima desses ácidos graxos para a expressão de suas atividades. Porém, outros autores demonstraram que a relação entre eles também é essencial provavelmente devido à competição que existe entre os ácidos graxos por enzimas relacionadas à síntese de seus derivados.

A importância dos ácidos graxos se deve à relação estabelecida entre estes e as diversas células do organismo, já que constituem substratos à síntese de fosfolipídeos, os quais constituem 75% dos lipídeos presentes na membrana celular e são importantes determinantes da fluidez da mesma. A fluidez da membrana plasmática é principalmente influenciada pelo grau de insaturação dos ácidos graxos constituintes dos fosfolipídeos, pelas razões entre ácidos graxos saturados e polinsaturados e entre colesterol e fosfolipídeos. Quanto maior o grau de insaturação, maior a fluidez da membrana, ocorrendo o oposto em relação à maior proporção entre ácidos graxos saturados e polinsaturados e entre colesterol e fosfolipídeos. Desse modo, os AGPI influenciam as propriedades físico-químicas da membrana e podem promover diferentes interações entre lipídeos e proteínas, potencialmente resultando em alterações nas funções celulares.

A ingestão de óleo de peixe ocasiona a substituição parcial dos AGPI ω6 pelos ácidos graxos EPA e DHA na membrana de monócitos, plaquetas, neutrófilos e linfócitos B e T, sendo esta incorporação já identificada com 24 horas de suplementação através de nutrição parenteral em pacientes sépticos e atingindo um platô após 04 semanas em neutrófilos de indivíduos saudáveis suplementados com óleo de peixe por via oral.

Em resposta a estímulos celulares, os fosfolipídeos sofrem ação da enzima fosfolipase A2 e disponibilizam os ácidos graxos precursores da síntese de eicosanóides. Estes são mediadores químicos da resposta imunitária resultantes de catálises realizadas pelas enzimas ciclooxigenase (COX) e lipoxigenase (LOX) sobre os ácidos graxos. Tais reações originam prostaglandinas (PG), tromboxanas (TBX) e leucotrienos (LT). Os derivados dos AGPI ω6 incluem as PGs e TBXs da série 2 e LTs da série 4, enquanto os derivados dos AGPI ω3, em particular a partir do EPA, constituem PGs e TBXs da série 3 e LT da série 5.

Os eicosanoides produzidos a partir dos AGP I ω6 são mediadores importantes da inflamação e trombogênese. Eles são capazes de induzir febre e eritema, aumento da permeabilidade vascular, vasodilatação e aumento da dor e do edema mediados pela histamina. Alterações estas consideradas pró- inflamatórias.

Em contraste, os eicosanoides provenientes de AGPI ω3 são biologicamente menos potentes que os citados acima, contribuindo para a modulação da resposta inflamatória. A suplementação com AGPI ω3 diminui as concentrações plasmáticas das citocinas pró-infplamatórias (TNFα, IL6 e IL1β).

O mecanismo pelo qual os AGPI ω3 atenuam a resposta inflamatória pode envolver alterações relacionadas à transcrição gênica, em particular a inibição à ativação do NFκB e o aumento da atividade dos fatores transcricionais peroxissomal proliferator ativators (PPAR). O NFkB encontra-se na forma inativa no citosol das células inflamatórias em repouso. Quanto há estímulo inflamatório, migra ao núcleo e induz a transcrição de genes pró- inflamatórios relacionados à COX2, ICAM-1, VCAM-1, E-selectina, TNFα, IL1β, IL6, óxido nítrico sintetase e proteínas de fase aguda.

Então, pode-se constatar que efetivamente a suplementação com AGPI ω3 proporciona uma modulação da resposta inflamatória. Os achados na ciência já são bem consistentes em relação a esse benefício. Mas, um pouco da teoria faz-se importante para entender a importância da sua aplicabilidade na prática. E esse, foi apenas um dos benefícios associados à suplementação com AGPI ω3. 

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