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Pirâmide Alimentar: Mito ou Verdade?

De acordo com a pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por inquérito Telefônico) do Ministério da Saúde de 2013, 51% dos brasileiros com mais de 18 anos estavam acima do peso. Em 2006, onde esta pesquisa teve inicio, o índice era de 43%. Entretanto, na atualidade é muito comum observar pessoas com sobrepeso circulando pelas ruas, o que há aproximadamente 50 anos atrás não era tão fácil de ser observado. Vale ressaltar que, naquela época não existiam produtos light ou diet, não existiam academias “em massa” nem dietas da moda, mostrando que possivelmente algo esteja errado nos dias de hoje. Mas será que está mesmo?

Nos dias atuais a maioria dos profissionais da área de saúde (destacando nutricionistas e endocrinologistas) e a maioria das revistas de saúde, apresentam a tão conhecida Pirâmide Alimentar. Esta pirâmide tem como objetivo estabelecer para a população, de uma forma geral, a divisão dos macronutrientes – carboidratos, proteínas e gorduras – que devem ser consumidos no dia a dia. Desta forma, analisando rapidamente a pirâmide, é possível perceber que a base da nossa dieta é composta pelos carboidratos – arroz, pão, massas, cereais – , no topo, ou seja, os alimentos que devem ser consumidos em uma menor quantidade, é possível encontrar as gorduras, e no centro da pirâmide estão presentes as carnes magras, ovos, leite e derivados, frutas e verduras. Mas… De onde surgiu essa pirâmide? Em que estudo ela foi baseada? Por que as gorduras estão no topo da pirâmide? Todas essas perguntas serão respondidas a seguir.

Durante a primeira metade do século XX, ao contrário do cenário atual, a população sofria mais com a desnutrição do que com o sobrepeso. Após a Segunda Guerra Mundial, os profissionais na área de saúde dos Estados Unidos se atentaram a uma epidemia de doenças cardíacas. Um bioquímico, Ancel Keys, da Universidade de Minnesota, sugeriu que a gordura da dieta poderia ser a causa dessa epidemia. Em 1956, Keys iniciou o “Estudo dos sete países”, no qual seriam avaliados 130 mil homens de meio idade na Iugoslávia, Grécia, Itália, Finlândia, Holanda, Japão e Estados Unidos. Os participantes passaram por exames no início do estudo e, periodicamente, eram reavaliados. Em 1970 foram publicados os primeiros resultados e, a cada 5 anos, os resultados eram renovados. Dentre esses resultados foi observado que: (1) os níveis de colesterol estava relacionado à doença cardíaca; (2) a quantidade de gordura saturada na dieta aumentava os níveis de colesterol, o que aumentava a chance de doença cardíaca e; (3) a gordura monoinsaturada era um fator de proteção à doença cardíaca. Entretanto, Keys já possuía uma ideia de que a gordura estava relacionada com a incidência de doença cardiovascular, sendo que, outros países como França e Suíça provavelmente não trariam esses mesmos resultados.

Em 14 de Janeiro de 1977, após alguns acontecimentos no senado americano, e alguns protestos relacionados à contracultura, que criticavam o consumo de carnes e do famoso café da manhã americano composto por ovos e bacon, foi publicado o Dietary Goals for the United States, um documento que estabeleceu o plano alimentar atual, onde 30% da dieta seria composta por gorduras – sendo 10% de gorduras saturadas. Além disso, a gordura foi comparada ao cigarro e a indústria de carnes e ovos foi acusada de vender produtos nocivos com o intuito lucrativo.

Algum tempo depois, Carol Foreman, secretária assistente do USDA (United States Departament of Agriculture) consultou a NAS (National Academy of Science) no intuito de investigar se as diretrizes já publicadas tinham procedência. Entretanto, Philip Hangler – Presidente da NAS – a informou que essas diretrizes não possuíam bases científicas. E o que foi que ela fez? Contratou Mark Hegsted – da Harvard Scholl of Public Health – que era a favor das diretrizes, e em fevereiro de 1980 foi publicado o Dietary Guidelines of Americans, muito similar à diretriz de 1977.

Após esta publicação, vários estudos foram realizados para verificar se de fato a gordura na dieta causava doença cardiovascular. Entretanto, nenhum desses estudos associou a baixa ingestão de gorduras como fator de proteção cardiovascular. Um desses estudos, realizado pelo NHLBI (National Heart, Lung and Blood Institute) testava o efeito de uma droga denominada colestiramina. O estudo concluiu que esta droga reduzia o colesterol e diminuía, muito pouco, o número de mortes por doença cardíaca. A partir deste resultado, os defensores das diretrizes associaram a baixa ingestão de colesterol e a redução no número de mortos por doenças cardíacas (lembrando que existem diferenças entre o uso do medicamento e a redução na ingestão de colesterol).

Após esta “descoberta”, a instituição passou a publicar essa informação para toda a população. Em março de 1984, a capa da revista Time, onde apresentava um prato, com ovos substituindo os olhos e bacon substituindo a boca (que por sinal estava triste), com o título “Colesterol”. A reportagem dizia que os resultados do estudo “indicam fortemente que quanto menos colesterol e gordura na sua dieta, mas reduz-se o risco de doença cardíaca”. Em 1992, 8 anos após a publicação na revista, a USDA fundou, baseada nas diretrizes já divulgadas, a Pirâmide Alimentar com a sua famosa recomendação de pouca gordura e muito carboidrato.

É importante observar que essas recomendações ajudaram, e muito, as indústrias alimentícias e farmacêuticas com seus cereais matinais ricos em açúcar e suas drogas desnecessárias. Uma dieta balanceada que respeite a individualidade de cada um é extremamente importante e fundamental para que se tenha uma vida saudável e equilibrada. Lembre-se, a evolução é um acontecimento gradual e lento, décadas e décadas foram necessárias para que o homem chegasse onde ele se encontra.

“Este texto foi escrito por Daniel Franco, que faz parte da equipe de Nutrição da SNC Salvador

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