Proteínas do leite e seus peptídeos bioativos: ingredientes funcionais

Os alimentos funcionais são alimentos comuns que fazem parte da dieta cotidiana de um indivíduo e fornecem benefícios específicos para a saúde, além das suas propriedades nutritivas inerentes, como prevenção de diversas enfermidades e promoção do bem-estar físico e mental, isto é, são alimentos convencionais consumidos in natura que possuem ingredientes com função fisiológica benéfica no organismo. Em contrapartida, os nutracêuticos são alimentos ou componentes de alimentos que apresentam algum benefício à saúde, entretanto, há apelo médico ou de saúde relacionado ao consumo desses alimentos/componentes alimentícios, nesse conceito são englobados desde os nutrientes isolados, suplementos dietéticos até produtos projetados, produtos herbais e alimentos processados. Já os ingredientes funcionais são definidos como um grupo de compostos que demonstram propriedades benéficas à saúde, como exemplo: as alicinas existentes no alho, os carotenóides e flavonóides presentes em frutas e vegetais, os ácidos graxos poliinsaturados presentes em óleos vegetais e óleo de peixe.

As proteínas vêm sendo reconhecidas como fontes de peptídeos bioativos, estes são capazes desempenhar um papel regulador no organismo humano e são considerados como estratégias alternativas para a prevenção e tratamento de diversas doenças. Tais peptídeos correspondem a fragmentos específicos de proteínas (2 a 9 aminoácidos) e ocorrem espontaneamente no alimento, durante o seu processamento ou através da digestão incompleta da proteína no trato gastrointestinal, sendo absorvidos dessa forma. Determinados peptídeos podem impactar positivamente nas funções corporais e influenciar na saúde humana. Quando ainda integrados à sequencia proteica eles estão inativos, mas exercerão suas funções após sua liberação da cadeia proteica, através de hidrólise por enzimas digestivas ou por microorganismos proteolíticos, ou ainda por enzimas proteolíticas oriundas de microorganismos ou plantas. As proteínas endógenas também podem gerar peptídeos bioativos. Esses peptídeos podem exercer funções nos sistemas cardiovascular (ações anti-hipertensiva, antioxidante, antitrombótica e hipocolesterolemizante), nervoso (atividades opioides – agonista e antagonista), gastrointestinal (funções quelante de minerais, inibidor de apetite e antimicrobiana) e imunológico (ações antimicrobiana, imunomodulatória e citomodulatória) a depender da sua sequencia de aminoácidos.

As proteínas do soro do leite ou whey proteins têm sido extensivamente estudadas, dando origem a produtos valorizados para as indústrias de alimentos, de nutracêuticos e até mesmo farmacêuticas. Estudos recentes com essas proteínas têm demonstrado suas funcionalidades, não deixando dúvidas sobre o seu potencial como um nutracêutico ou ingrediente funcional. Nesse âmbito, a hidrólise enzimática das proteínas do soro do leite é considerada o processo mais promissor para a produção de peptídeos bioativos.

Em seu estudo, Agyei & Danquah (2012), discutem os efeitos imunomodulatórios e antimicrobianos de peptídeos bioativos. O mecanismo de ação dos peptídeos bioativos no controle e prevenção de doenças é através da interação com invasores hospedeiros microbianos como agentes antimicrobianos ou pela supressão ou estimulação de determinadas respostas imunes. Alguns peptídeos imunomoduladores (tais como os fosfopeptídeos da caseína) já estão sendo comercializados no mercado. Fosfopeptídeos de caseína (CPP) são lançados no trato gastrointestinal que, entre outras funções também estimula a produção de imunoglobulina A (IgA) em ratos.

As características estruturais, hidrofobicidade, basicidade bem como a composição e sequencia dos aminoácidos exercem um papel crucial na determinação da atividade biológica desenvolvida por aquele peptídeo. A maioria dos peptídeos com propriedades antimicrobianas, por exemplo, são curtos, hidrofóbicos e catiônicos na natureza. Outrossim, a presença de aminoácidos chaves tem sido reportada para conferir funcionalidades específicas. Por exemplo, a maioria dos potentes inibidores de ECA (enzima conversora da angiotensina, envolvida no aumento da pressão arterial), isto é, valina-prolina-prolina e isoleucina-prolina-prolina, contêm ao menos um resíduo prolina. A glicina é o aminoácido chave nos peptídeos sintéticos (Tyr-Gly and Tyr-Gly-Gly) os quais têm sido mostrados para aumentar a proliferação de linfócitos sanguíneos periféricos.

Encontram-se até então, em estudos, numerosos peptídeos derivados das proteínas do leite exibindo diversas atividades, tais como, opiácea, antitrombótica, anti-hipertensiva, imunomodulatória, antimicrobiana, anti-câncer, anti-inflamatória, propriedades de utilização mineral e antioxidante. Isto posto, se torna clara a classificação das proteínas do leite como ingredientes funcionais.

Este texto foi escrito por Thaíssa Silva, integrante da equipe de nutrição da SNC-Salvador, baseado em artigos científicos. Todo material utilizado pode ser disponibilizado quando requerido. Se você ficou com alguma dúvida entre em contato conosco pelo e-mail: nutricao@sncsalvador.com.br. Respeite nosso material intelectual. Sempre que usar nossos textos mencione o nome do autor e do site, por favor. Acompanhe-nos nas redes sociais e não perca nenhuma notícia e/ou promoção (busque por sncsalvador).

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